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sexta-feira, 15 de julho de 2011

A cidade de Deus - Santo Agostinho.


DE CIVITA DEI – A CIDADE DE DEUS – SANTO AGOSTINHO

Por: Heriberto da Mota de Arruda Barros[1]

http://www.paraclitus.com.br/2011/anoticias/santo-agostinho-um-modelo-por-gabriel-viviani/


RESUMO

            Agostinho, teólogo e filósofo cristão, viveu em um período bastante conturbado, no qual Roma experimentava a destruição do seu Império. Por este motivo, os cristãos ou não-cristãos (pagãos), acusavam o cristianismo como sendo o responsável pelas calamidades acontecidas contra o império. O presente artigo aborda as principais idéias agostinianas sobre a Cidade de Deus escrita para defender-se de tais acusações. É uma verdadeira resposta de defesa ativa para as argumentações repressoras que o cristianismo havia recebido, mais precisamente o Deus de amor que “deixara” o império ruir.

INTRODUÇÃO

            Ao estudarmos os escritos de Agostinho, é possível analisarmos historicamente as tradições do Cristianismo e seus fundamentos racionais. Nesta caminhada observamos que o legado que nos deixa Agostinho não é só de interesse Teológico e Filosófico, pois, abrange diversas áreas do conhecimento, como por exemplo, a nossa que conseguimos obter diversas informações preciosas.
            É tratado de forma bem sintética as “revelações” feitas por Agostinho contidas no seu livro Cidade de Deus, assim como a utilização de outras biografias de apoio como Cremona, Campenhausen e um dos escritos importantíssimos do próprio Agostinho: As Confissões os quais esclarecem sobre a sua importância.
            O grande “mestre” combateu com todas as suas forças as heresias de seu tempo, expressas no maniqueísmo, no Donatismo, no Arianismo e no Pelagianismo. Ele tem sido lembrado e respeitado no decorrer da história do Cristianismo, não somente porque a sua filosofia e sua teologia foi à abertura para o cristianismo do medievo, como também o fato de sua vida ter sido alvo de um testemunho de piedade cristã. 
UM HOMEM A PROCURA DA VERDADE

            Aurelius Augustos, conhecido como Santo Agostinho nascido em 354, natural de Tagaste, hoje Numídia, região da África, Primogênito de Patrício, funcionário municipal, e Mônica, fervorosa e piedosa cristã que segundo relatos, eram um casal de classe média.          
Quando criança, Agostinho desejava ser batizado quando tinha indigestão e orava para não ser espancado na escola. Para ele, essa prática de orar era natural (em sua infância), pois, foi uma ação ensinada por sua mãe. A falta desta prática religiosa se deu a partir do momento que sua masculinidade começa a florescer, período bastante “pervertido” vivenciado pelo filho de Mônica. Era um jovem angustiado, um atormentado. Gostava dos prazeres terrenos e a eles se entregava.

“Minha alma não se encontrava bem; estava ferida, e assim chegada, tentava curar-se das coisas sensuais. Amar e ser amado era a coisa mais doce para mim, sobretudo quando podia gozar do corpo da pessoa amada. E assim sujava a amizade com a nódoa da concupiscência; Assim a enegrecia a sua brancura com a fuligem e luxúria. E apesar de minha desonesta sujidade, desejava vaidosamente que me tivessem por elegante e educado.
Precipitei-me finalmente no amor em que desejava cair: fui amado! E embora ocultamente, que pude gozar do vínculo do prazer e atei-me com alegria a essas pesadas correntes, que depois acoitam como varas incandescente, feitas de ferro dos ciúmes, das suspeitas e dos temores, dos ódios e das rixas. (Confissões, 1985, p. 32-3)

Como estudante, viveu libertinamente, mantendo relações com várias mulheres, das quais, resultou um filho, Adeodato, nascido em 384, a quem Agostinho não negou a Paternidade.

(...) E como o filho já não era mais um menino, estava No limiar da puberdade, ficava a observar os sinais do seu desenvolvimento. Quando um dia em que o levara consigo as termas, no ato do banho, percebeu que aquele galinho erguia a crista e logo cantaria o seu cocoricó no galinheiro, ficou satisfeitíssimo e, chegando em casa, anunciou à sua mulher: “Podemos nos considerar avós!” (...) (Agostinho de Hipona, A Razão e a Fé – Carlo Cremona, p. 22)

Ao contrário da reação de Patrício, a piedosa “Santa” Mônica, replica ao seu marido como sendo ele uma corrupção para o filho, o qual ela já sonhará em perfeita comunhão com Deus. Patrício se convertera ao cristianismo pouco tempo antes de seu falecimento.
Lendo uma das obras de Cícero, Agostinho sentiu-se mais atraído por uma vida menos sensual e mais comprometido com a busca da verdade. Busca essa que estava no cerne de sua espiritualidade e que o incomodava muito. Este foi sempre o motivo pelo qual Agostinho viveu percorrendo muitos “ambientes”, à procura desta verdade.
            Juntou-se a uma seita bastante difundida, não só entre a elite intelectual de Cartago, mas em toda a parte, e assim tornou-se um Maniqueísta.
            Segundo CAMPENHAUSEN “a comunidade dos “Maniqueus”, fundada pelo persa Mani no século III, foi a última grande criação religiosa do oriente no período entre o cristianismo e o Islamismo. Essa seita rejeitava o Judaísmo e o Antigo Testamento, porém aceitava Cristo entre seus precursores” (2005, p. 333)
            A crença central do Maniqueísmo consiste em afirmar a existência de dois princípios fundamentais que governam o universo, o Bem e o Mal, representado pela Luz e pelas Trevas, e que são equivalentes em força, estando em permanente combate. Esta idéia se assemelha bastante na crença do Céu e do inferno da Cristandade, forças essas que estão em conflitos espirituais.
            Vejamos o que nos diz Agostinho em suas confissões sobre o Maniqueísmo:
“Desta forma, vim a encontrar um grupo de homens que depois percebi não serem mais que uns vaidosos sensuais e charlatões, até a sociedade. Só dizem mentiras e erros. Este grupo – os maniqueus - tinha nos lábios uma palavra composta por várias sílabas tomadas de deus Pai, de Jesus Cristo e do Espírito Santo. Embora usassem continuadamente estes nomes, tinham o coração bem longe d’Eles. (Confissões, 1985, p.37 -8) 

            O nosso grande “mestre” nesta simples passagem literalmente “cospe no prato em que se deliciou” desdiz o que afirmara com vivacidade antes de seu encontro com Cristo. Será que o Cristo que habitava em sua alma não o castigaria por “atacar” sem piedade seus irmãos pervertidos, mesmo sendo eles considerados hereges? De qual forma trataria Cristo estes homens? Atacando-os sem os dar direitos de réplica? Agostinho tinha em suas mãos as cartas nas mangas para atacar os maniqueus, já que outrora fora uns deles, os argumentos usados seriam aqueles que realmente o ferissem.
Pois bem, passemos adiante nestes pequenos comentários sobre a vida do Nosso “Santo”.
Durante um bom período, o Maniqueísmo serviu de consolo para Agostinho, mais não foi lá com os Maniqueus que encontrara a verdade a qual tanto procurara e que saciaria sua alma.
Em 384, tempo de Outono, chega Agostinho a Milão esperançoso de novas perspectivas de vida que “alegrara” o seu coração confuso e desnorteado. Tornou-se professor de retórica e entrou em contato com a filosofia Neoplatônica, e ao mesmo tempo ouvia os sermões do bispo Ambrósio, o qual considerava um grande homem de simplicidade e vivacidade e culto pregador das Palavras Divinas, o qual serviria testemunho para sua vida cristã.
Agostinho teve acesso á literatura paulina, especialmente as Cartas aos Romanos: “Comportemo-nos honestamente, como em pleno dia: nada de desonestidades nem dissoluções; nada de contendas, nada de ciúmes. Ao contrário, revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não façais caso da carne nem lhe satisfaçais aos apetites.” (Romanos. 13: 13-14). A partir destas palavras pronunciadas por Paulo pela inspiração do Mestre, Agostinho tomaria outros caminhos bem distantes do qual vivia antes e seria uma “nova criatura”.
Pouco tempo antes da morte da sua mãe Mônica, Agostinho se batizou juntamente com o seu filho e seu amigo Alípio para a “consumação” da sua fé: “Unimos a nós o meu filho Adeodato nascido do meu pecado, em que Deus se derramara abundantemente: tinha quinze anos, e já a sua inteligência excedia a de pessoas muito mais velhas e mais sábias do que ele.” (Confissões, 1985, p.160) Com toda a certeza a sua mãe agora poderia descansar em paz, já que o seu desejo de ver o filho perto do Senhor havia se concretizado de uma forma tão precisa e verdadeira.
Fundou em sua terra natal na companhia de vários amigos, uma comunidade monástica e em visita a Hipona, conheceu o Bispo Valério que o “convenceu” a se ordenar como sacerdote e desta forma teria Agostinho que se afastar de suas “obrigações” na comunidade a qual vivia. Com a idade avançada do Bispo Valério, nomeia Agostinho como sendo o bispo auxiliar e após a sua morte foi chamado para assumir o cargo deixado pelo velho Bispo. Nesta fase de sua vida Agostinho arrumará tempo para escrever umas de suas importantes obras, “Confissões”, em que o tema central passa a ser considerado a tormenta a qual passou longe de Cristo em sua adolescência e juventude.

O IMPÉRIO EM DESTRUIÇÃO – A OBRA DE AGOSTINHO
            Após este breve histórico da vida deste homem tão importante para a Igreja Cristã e ainda mais para os estudos Históricos da mesma, localizemos o nosso “Doutor e Filósofo” contextualizando-o com o momento histórico no qual estava inserido.
            No século III o Império Romano vivencia momentos conflituosos, que determinarão o seu fim. O império sofrendo abruptamente não consegue mais expandir suas fronteiras, reduzindo desta forma o número de escravos e povos conquistados.
            Sem escravos suficientes, a produção agrícola entra em fragmentação, transformando a realidade econômica e afetando a organização de toda estrutura social e Imperial, inclusive a militar, já que muitos dos “alistados” abandonaram seus postos.
            Por estes problemas ocorridos no Império, por esta fragilidade e fragmentação, Roma é “devastada” pelos bárbaros que encontram espaços suficientes para se infiltrarem. Deu-se, então, uma ruralização da economia e uma evasão das cidades para os campos, o que agravava ainda mais o problema de segurança das cidades que estavam sendo abandonadas.
Em 28 de agosto 410, Roma, absolutamente fragilizada, foi saqueada por Alarico, um visigodo, iniciando a desestruturação total do Império Romano do Ocidente.
CAMPENHAUSEN nos afirma a importância do efeito demolidor com o qual Roma suportava a invasão experimentada:
“Esse evento teve um efeito demolidor e distante de sua real importância política. Como pode entender que a capital do antigo império, soberana do mundo e cidade eterna, tivesse sofrido uma destruição tão violenta? O mundo todo parecia tremer em suas bases e os pagãos sabiam qual a explicação! A seus olhos, a catástrofe era o castigo pelo abandono das antigas divindades guardiãs e da religião tradicional: obviamente, o novo Deus cristão do império havia se mostrado impotente e fracassado. (2005, p. 374)

            É dentro deste contexto histórico que encontramos Agostinho. Tal fato provocou os romanos, Cristãos ou não, a levantaram questionamentos sobre a base ideológica – religiosa imposta pelos patrícios, pois se defendia que este tinha um sustentáculo metafísico, como pensava Platão. Para os pagãos, o saque de Roma, portanto, não poderia ter outra causa se não a da aceitação do Cristianismo em detrimento dos cultos dos deuses. E posta desta forma a culpa pela fragmentação do império no Deus cristão. De tal maneira, admitir as crises internas as quais vivia Roma era assegurar sua própria fraqueza
 “A queda de Roma abalou o Império. Todos os cristãos e não cristãos acusavam o cristianismo: o deus do amor e da caridade não serve para institucionalizar, isto é, organizar e defender uma civilização e uma cultura. 410 é a demonstração prática da fraqueza política do Deus dos cristãos.” (AGOSTINHO, 2006, p.17) 

                        Ao contrário do que pensavam os romanos em relação à culpa da queda de Roma pela presença do Cristianismo, aparece a Cidade de Deus. Esta obra de Agostinho tem como seu principal conteúdo a interpretação do mundo à luz da Fé do Cristianismo. Agostinho baseava-se também na filosofia grega e que exerceria forte influência no novo momento histórico que estava por se iniciar (Idade Média).
O conteúdo da obra é utilizado como argumentação para refutar as acusações vindas por parte dos romanos. Ele relata que momentos piores e mais “escuros” haviam ocorrido antes do Cristianismo ser apresentado como religião oficial.
É interessante notar que em sua obra, Agostinho utiliza-se de várias personalidades romanas para respaldar ou exemplificar seus argumentos como o caso de Lucrecia que se matou por haverem-na estuprado. Diz Agostinho que exalta a castidade de Lucrecia uma nobre dama da velha Roma. Ela era mantida como uma personalidade por ter se sacrificado, mas o nosso “Santo” reverte esta situação acusando-a. “Que diremos de Lucrecia? Adultera? Casta? Quem suspeitaria dificuldade em tal caso?” (AGOSTINHO, 2006, p.50). Percebermos então da parte de Agostinho uma linguagem satirizada ao retratar fatos vivenciados por Roma. Ele consegue maltratar, atacar, as antigas crenças do império. Não são poucas passagens em que a sátira é utilizada, podemos até dizer que o livro foi escrito de forma satírica. Principalmente quando ele quer atacar os deuses pagãos os quais ele considera vivos, mas não deuses e sim nada mais que demônios. Eram histórias tidas como sagradas em Roma, muitos dos que lá viviam e partilhavam da cultura romana acreditavam que eram verdadeiras e até mesmo sagradas. Tais essas histórias passam a ser observada de outro ângulo por Agostinho, ele consegue convencioná-las. Elas serviriam para catequizar os homens e aproximá-los de Deus. O importante era afastá-los dos antigos cultos pagãos e dos “demônios” que conseguiram impregnar sua “maldade” no coração daqueles que deveriam servir ao único senhor.
Como já foi observado os pagãos atribuíram a invasão ao fato de os romanos terem abandonado os deuses antigos. De acordo com eles, enquanto fora adorado, Júpiter protegera a cidade. Ao ser “trocado” pelo Cristianismo, deixara de fazê-lo. Em seu livro Cidade de Deus, na passagem que se segue Agostinho condena o comportamento daqueles que estiveram seguros em Cristo enquanto o problema de Roma estava gritante. Muitos haviam se refugiado em Cristo para não serem mortos e após os momentos de turbulência condenam a presença do cristianismo:
          “Assim escapou a morte a maioria desses caluniadores de nossa era cristã, que atribuem ao Cristo, os males que Roma sofreu; o benefício da vida, por eles devido ao nome do Cristo, não é o nosso Cristo, porém, que atribuem, e sim ao destino, quando maduramente refletissem, no que suportaram de infortúnios poderiam reconhecer a providência que se vale do flagelo da Guerra para corrigir e pulverizar a corrupção humana e, atormentando com semelhanças aflições almas justas e meritórias, faz que, depois da prova, passem o melhor destino ou os retém na Terra para outros desígnios.” (AGOSTINHO, p. 28 -9)                


            Por esta passagem percebemos a firmeza das palavras utilizadas por Agostinho para “proteger-se” das acusações que lhes eram impostas e para revelar aos Romanos que a salvação estava acerca daqueles que aderiam o cristianismo. Anunciava nas entrelinhas de seus escritos, a libertação que o Cristo Jesus estava por oferecer, esta sim era a proteção real, a única divindade que deveria ser adorada e não aqueles que eles consideravam deuses. Argumenta Agostinho que os deuses dos pagãos eram perversos, pois, afastavam o povo da Cidade de Deus. Em razão desses deuses Roma sempre fora perversa e pecaminosa, e esse quadro só se reverteria quando aceitassem a salvação advinda através de Cristo Jesus. Com o Cristianismo, ela se salvaria. Se a cidade terrena fosse invadida, do que isso valeria? O maior objetivo, a salvação por meio da bondade e providencia divina era atingir a Cidade de Deus, a morada dos eleitos, daqueles que estavam dispostos a renunciar o mundo carnal para viver plenamente em Cristo Jesus, salvação eterna oferecida pelo Pai que se manifesta pelo poder e atuação do Espírito Santo.
De certo modo, Agostinho consegue “mexer” na história de Roma, consegue transformá-la a seu pensamento. Assim nos diz CAMPENHAUSEN:
         “Agostinho se aventura em descrever um detalhado e terrível ensaio de toda a história de Roma. Começando com o fratriador Rômulo, até as últimas abominações da República. Trata-se de um ataque sincero desfechado contra as sacrossantas tradições, e que, até então, nuca haviam sido tentado desta forma, e onde ele rasga a máscara da face da hipocrisia romana. (2005, p.377)

Agostinho, na Cidade de Deus, divide a sociedade em dois “partidos” opostos: A Cidade de Deus e a Cidade Terrena. “Com efeito, ambas as Cidades enlaçam-se e confundem-se no século até que o juízo final as separe.” (AGOSTINHO, 2006, p.64). Na cidade de Deus encontramos uma “ordem de Fé” para entendermos o mundo e a própria historia do homem. “Tudo o que aparece no mundo e aparece na história é pertencente à Fé como também a providência divina. (Cf. idem, 2206, p.18)
O texto pode ser considerado uma obra Teológica e Filosófica, na qual Agostinho tenta convencer os cristãos e os pagãos que a destruição do Império Romano fazia parte da vontade divina. E para isto usava de argumentos bastante convincentes e concisos. Como retórico que era, sabia como se portar, e escrevia para não se contradizer. Mesmo sendo um suntuoso escritor chega a se contradizer desenvolvendo uma fórmula não convincente; a não ser que o elemento Fé fosse utilizado ao analisar a narração:
“Desse modo, o povo, que começara a desgostar-se do Senado, conteve-se e sossegou. Houve também um eclipse do Sol e o vulgo ignorante, desconhecendo o movimento predeterminado dos astros, atribui-u aos merecimentos de Rômulo, como se o sol houvesse posto luto. Portanto. Não deviam continuar na crença de que fora morto e o eclipse da luz do dia era índice do crime, como deveras sucedeu quando crueldade e impiedade dos judeus crucificaram o Senhor. Prova evidente de não haver aquele obscurecimento acontecido segundo o curso ordinário dos astros é que transcorria a Páscoa dos judeus, celebrada somente no plenilúnio, quando o eclipse do Sol apenas sucede no fim do quarto minguante. (AGOSTINHO, p. 122)     

            “A Cidade de Deus foi escrita por Agostinho para tratar do confronto que a Cristandade enfrentava com a História. Escrita entre 413 a 426 é a interpretação do mundo à luz da fé cristã. Trata-se da primeira teologia e filosofia da História.” (AGOSTINHO, 2006, p.17)
Em seus primeiros livros, é possível perceber uma forte argumentação de defesa ao Cristianismo como já enfatizamos anteriormente. Desta forma, é encontrada uma dialética entre dois tipos de argumentos, uma acusação por parte dos Romanos e uma contra-argumentação agostiniana, e a segunda com o poder suficiente para derrubar a primeira.
            Podemos constatar essa dialética na seguinte passagem no livro primeiro da Cidade de Deus que tem como título “Graças e desgraças comuns, na maioria, a bons e maus”:
“Mas alguém perguntará por que, nesse caso, se estendeu aos ímpios, aos ingratos a misericórdia divina. Por quê?! Sem dúvida porque emanou de quem, todo dia. Faz o Sol erguer-se sobre os bons e os meus e chover sobre os justos e injustos. Embora vários deles, pensando nisso, se corrijam da impiedade pelo arrependimento e outros, na dureza impenitente do coração, desprezando as riquezas de sua bondade e paciência, entesourem cólera para o dia da vingança e do juízo, em que a infalível justiça recompensará cada qual segundo suas obras, a paciência de Deus convida os maus a penitencia, como os flagelos adestram os bons na paciência. E como a misericórdia de Deus abraça os bons para auxiliá-los, sua severidade apodera-se dos maus para castigá-los. Com efeito, prouve à divina Providência preparar para os justos, no futuro, bens de que os injustos não gozarão e para os ímpios males pelo quais os bons jamais serão atormentados. Quanto aos bens e males temporais, a Providência quis fossem comuns uns aos outros, a fim de o homem não apetecer com demasiada avidez os bens que vê também nas mãos dos maus e não evitar vergonhosamente os males que, de ordinário mesmo, afligem os bons.” (AGOSTINHO, 2006, p. 35-5)

Outro elemento que pode ser observado nesta passagem são os argumentos utilizados por Agostinho para entender o porquê do mal existir.
            Mais uma vez utilizando as palavras de CAMPENHASEN, “Agostinho toma como base a Bíblia e os antigos historiadores” (2005, p. 380), nos dá uma descrição detalhada de ambas as “cidades” de sua origem e de seu desenvolvimento e progresso através do tempo terreno, “afim de concluir com a expectativa da ressurreição e o término do tempo na eternidade.” (Idem, p.380)  
            Por este procedimento transforma o teólogo em um historiador, e é possível se dizer que, é o primeiro “filósofo da história”. (Cf. CAMPENHAUSEN – 2005, p. 380)  
O desenvolvimento das cidades está bem distante dos conceitos que trazemos sobre evolução. “Deus determina a história, e o resultado disso é precisamente a incompreensão dos acontecimentos concretos que se sucedem a cada momento, que devemos aceitar e não tem qualquer possibilidade de explicação. (idem, p.380) 
Sobre isso nos afirma CREMONA:
“O esforço de Agostinho em compor a sua obra prima A Cidade de Deus é, não só teológico, mas também moral e cívico.” (1990, p. 224).
É possível observarmos diante de tudo o que já foi visto, a postura filosófica que teve Agostinho ao escrever a Cidade de Deus, suas colocações, seus ensinamentos, nos remetem ao cerne da Filosofia da História.
Agostinho quer mostrar para “todos” que o tempo pertence a Deus e ele nos permite viver em meio às adversidades para a lapidação. Deste modo, o ser passa por um crescimento tanto humano quanto espiritual. Assim “estaríamos” prontos para participarmos da Cidade Eterna ou a conhecida Cidade de Deus esta observada teologicamente.
            É um verdadeiro discurso filosófico que é encontrado em todo o desenrolar da Cidade de Deus. Durante todas as passagens é possível enfocar o desfecho das duas cidades que se divergem e se entrelaçam em si mesmas. A Babilônia, o lugar do Cativeiro, do presídio, do afastamento de Deus, e a Jerusalém, o lugar da vida em abundância, da libertação.
            A “missão” de Agostinho ao escrever a Cidade de Deus, tem a real intenção retórica para humanizar e salvar os homens. Agostinho afirma que no homem há dois amores em choque, como também na própria sociedade civil. As sociedades humanas se aproximam mais do amor a esse mundo, seguindo a vontade das massas, por isso está totalmente sujeita a ruínas, assim como o império ruiu.   Mas a Cidade de Deus, acima de tudo, pode influenciar e aprimorar a cidade dos homens até porque elas não vivem separadas. Enfatizando é claro, que a cidade de Deus é superior a cidade terrena e por isso a primeira deve exercer autoridade sobre a segunda. “A respeito da origem, progresso e do fim que as aguarda é que quero desenvolver meus pensamentos, com a divina assistência e para glória da Cidade de Deus, que o cotejo de tantos contrastes há de tornar mais resplandecente.” (idem, 2006, p.64)
            “Não vás para fora, volta-te para dentro. É no interior do homem que mora a verdade”. (idem, 2206, p.20). É este o convite que Agostinho faz ao leitor, deseja que entremos em nosso interior e nos liberte-mos de nossas fraquezas, das prisões e paixões mundanas que nos levam aos prazeres da cidade terrena e que nos separam da Cidade Eterna, discurso este que deve ser observado mais uma vez com o elemento fé no início.  Em análise final a esses comentários, sabemos que foi um simples enfoque nos principais aspectos da vida e obra de Agostinho e que a Cidade de Deus oferece bem mais informações, questionamentos e reflexões.

CONCLUSÃO
            Foi possível através de uma simples análise de alguns capítulos da Cidade de Deus escrita por Agostinho, considerado por muitos como “Doutor, Santo Padre da Igreja e Filósofo”, compreendermos a sua capacidade dialética e a forma como ele aborda “a vontade de Deus” aos de sua época.
            Podemos ate dizer que a Cidade de Deus foi escrita para denunciar o fim da antiguidade Clássica e anunciar um novo momento que nascia com o medievo, para o qual muitos dos escritos de Agostinho seriam utilizados como regras.
            Da mesma forma Agostinho trabalhava em seu livro uma teoria catequética, anunciando o reino celeste como único bem da humanidade. Os cristãos eram convidados através de Agostinho para renunciar as obras carnais, e se aproximarem dos bens celestes constituídos na Cidade Divina.

“Perguntei-o a terra, e ela respondeu-me: “não, não sou eu”; e todas as outras coisas da Terra disseram-me o mesmo”. Perguntei-o ao mar e ao abismo e aos seus velozes répteis, disseram-me: “não, não somos o teu Deus; busca-o mais acima”. Perguntei-o á brisa e ao ar que respiramos e aos moradores do espaço, e o ar disse-me: “Anaxímamenes enganou-se; eu não sou o teu Deus”. Perguntei ao céu, ao sol e á lua e às estrelas, e responderam-me: “não, também não somos nós o Deus que buscas”. Disse então a todas essas coisas que estão fora de mim: “ apesar de não serdes Deus, dizei-me ao menos alguma coisa d’Ele, dizei-me alguma coisa do meu Deus”!. (Confissões, 1985, p. 182).

REFERÊNCIAS
AGOSTINHO. A Cidade de Deus. Bragança Paulista: 9ª ed. Editora Universitária São Francisco, 2006.
AGOSTINHO. As Confissões. Editora Quadrante, São Paulo, 1985.
CREMONA, Carlo. Agostinho de Hipona: a razão e a fé. Petrópolis: Vozes, 1991.
 CAMPENHAUSEN, Hans Von. Os Pais da Igreja: A vida e a doutrina dos primeiros teólogos cristãos. Rio de Janeiro: Editora CPAD – Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 2005.




[1] Heriberto da Mota de Arruda Barros, Graduado em História pela Faculdade de Formação de Professores de Nazaré da Mata – FFPNM/UPE – Universidade de Pernambuco.

5 comentários:

  1. excelente blog !!! em filosofia fico com 10

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  2. Tenho que apresenta um trabalho sobre o livro A Cidade de Deus- Santo Agostinho. só que nem sei por onde começar!

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