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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Árabes X Israelenses: A mãe de todas as guerras




Richard Lebeau
 
       A aprovação do plano da ONU de partilha da Palestina, no dia 29 de novembro de 1947, foi recebida com festa pelos judeus, que sonhavam com a criação de seu Estado. Já para os árabes, contemplados com a menor porção do território, aquele foi um dia de indignação. Não demoraram a eclodir conflitos entre as duas comunidades e, no início de 1948, a região se encontrava em plena guerra civil.
 A partir de janeiro daquele ano, voluntários de países árabes vizinhos começaram a chegar para montar um cerco aos judeus residentes em Jerusalém. O líder sionista David Bem Gurion organizou, então, uma força militar para enfrentar os árabes. Em 20 de abril Jerusalém foi liberada, e no dia 14 de maio Ben Gurion proclamou unilateralmente a fundação do Estado de Israel.
A reação foi imediata. Em 15 de maio a Liga Árabe, coalizão formada por Egito, Iraque, Jordânia, Líbano, Síria, Arábia Saudita e Iêmen, declarou guerra a Israel e começou a enviar tropas à Palestina. A guerra se estendeu até julho de 1949, entre tréguas e retomada de hostilidades.
Os israelenses venceram e tomaram para si grandes porções do território originalmente reservado pela ONU ao Estado árabe a ser criado na região. Como se não bastasse, a área restante foi anexada pelos vizinhos: a Cisjordânia pelo reino da Jordânia, e a Faixa de Gaza pelo Egito. Sem terras, cerca de 700 mil refugiados palestinos se espalharam pelo Oriente Médio.
Nos últimos 60 anos, Israel tratou do caso como uma heróica guerra de independência travada contra um conjunto de poderosos inimigos árabes. O recém-nascido Estado judeu não teria responsabilidade na expulsão dos palestinos - a diáspora teria se dado por orientação dos dirigentes árabes.
Essa versão, porém, vem sendo questionada. Não por árabes, mas por uma nova geração de historiadores israelenses, que estudaram novos documentos, muitos extra-oficiais, oriundos de arquivos públicos e privados. Correndo o risco de ir contra a opinião pública de seu país, eles provam que o exército israelense está na origem de significativas remoções de população palestina.
A diferença entre as pesquisas realizadas por essa nova geração de estudiosos e as de seus antecessores é que, até os anos 80, os historiadores só se baseavam em obras publicadas pelo ministério da Defesa e nas Memórias de David Ben Gurion. Com a abertura dos novos arquivos, foi possível confrontar o mito com a realidade.
 "Ao mergulhar nesses documentos, eu disse a mim mesmo muitas vezes: 'Mas não foi nada disso que eu aprendi na escola!'", conta o pesquisador Tom Segev. Aliás, ele e seus contemporâneos não gostam de ser chamados de "novos historiadores", mas sim de "primeiros" historiadores do Estado de Israel.
A partir de 1985, nomes como Simha Flapan, Tom Segev, Avi Schlaim, Ilan Pappe e Benny Morris passaram a questionar a versão oficial. O acesso que tiveram a documentos extra-oficiais os levou a reescrever a história da guerra árabe-israelense de 1948.
Avi Shlaim, pesquisador do Saint Antony's College e professor de relações internacionais da Universidade de Oxford, dá um testemunho impressionante. "Os relatos tradicionais produzidos pelos sionistas na época do nascimento do Estado de Israel (...) apresentam a guerra de 1948 como um combate de morte, simples e bipolar, entre um adversário árabe monolítico e mal-intencionado, e uma pequeníssima comunidade amante da paz. (...) A vitória de Israel nessa guerra é miraculosa e é fruto da determinação e do heroísmo dos combatentes judeus, mais do que da desunião e da desordem do lado árabe."
As pesquisas atuais, entretanto, revelam que Israel foi à guerra com a certeza de vencer os árabes, ainda que em 1948 a Palestina abrigasse menos judeus (cerca de 30%) que árabes. Ocorre que a população judaica estava motivada e seus recursos econômicos e financeiros eram muito superiores aos dos palestinos.
Havia também a gritante superioridade militar de Israel frente aos inimigos. Em maio de 1948, as Forças de Defesa de Israel (Tsahal) reuniam 35 mil combatentes, enquanto as tropas palestinas regulares e irregulares somavam 25 mil homens. Uma vantagem numérica que cresceu de forma desproporcional, a favor das Tsahal. Em julho, Israel contava com cerca de 65 mil soldados, e em dezembro eles já eram 96,4 mil! À luz dessas cifras, fica mais claro por que o nascente Estado israelense conseguiu vencer 1,4 milhão de palestinos, em sua maioria mal armados.
Além da supremacia bélica, Israel ainda contava com outra vantagem em relação a seus adversários: a divisão interna do mundo árabe. Os soberanos dos países da região se recusavam a admitir o nascimento de um Estado palestino, como previa o plano da ONU, e disputavam a liderança do Oriente Médio.
O Egito considerava a Jordânia rival na disputa pela hegemonia do mundo árabe. A Arábia Saudita, também. De seu lado, a Síria desconfiava do Jordânia e do Iraque, ambos interessados em assumir a liderança da região. Todos perderam, mas a maior derrota coube à população árabe da Palestina, expulsa de suas terras em 1948, em muitos casos para nunca mais voltar.
Segundo o discurso oficial israelense, os refugiados partiram voluntariamente, sob orientação de dirigentes árabes, que lhes prometiam um regresso rápido e triunfal. Outro representante da nova escola de historiadores israelenses, Benny Morris, contesta a explicação. Segundo ele, a transferência de palestinos estava nos planos israelenses bem antes de 1948.
Para comprovar, o historiador cita uma passagem do diário do criador do movimento sionista, Theodor Herzl, redigida em 1895: "Nós precisamos expropriar com delicadeza. (...) Tentaremos empurrar a população sem dinheiro para o outro lado da fronteira, dando-lhe emprego nos países de trânsito, ao mesmo tempo em que lhe negaremos trabalho em nosso país. (...) Será preciso promover tanto a expropriação quanto a remoção dos pobres de modo discreto e circunspecto."
Em um discurso proferido em 7 de agosto de 1937, o futuro fundador do Estado de Israel, David Ben Gurion, declarava explicitamente: "A remoção da população é o pivô de um programa de colonização de alcance geral." Ou seja, a impressão que se tem é que os dirigentes israelenses aproveitaram a guerra para colocar em prática esse plano de transferência de população.
Em sua obra The birth of the palestinian refugee problem (O nascimento do problema dos refugiados palestinos, sem tradução para o português) Benny Morris menciona 228 localidades que perderam completamente sua população depois de entrar em confronto com o exército israelense. Em 41 desses casos, os habitantes foram expulsos. Somente 6 aldeias foram abandonadas por sua população a conselho das autoridades árabes.
Em outro livro, 1948 and After: Israel and the Palestinians (1948 e depois: Israel e os palestinos, também sem tradução para o português), o mesmo historiador apresentou um relatório do exército israelense relativo à emigração palestina entre 1º de dezembro de 1947 e 1º de junho de 1948, no qual se lê: "Pelo menos 55% do total do êxodo foi causado por nossas operações. O Irgun e o Lehi (grupos extremistas israelenses) provocaram diretamente cerca de 15% da emigração".
A essas estimativas Benny Morris acrescenta as suas. Ele atribui outros 2% das expulsões às ameaças feitas por soldados judeus aos aldeões e mais 1% à guerra psicológica empreendida pelo exército judeu. Portanto, segundo seu cálculo, 73% das fugas foram provocadas diretamente pelos israelenses. Ele soma ainda 22% de emigrações provocadas pelo "medo" e pela "crise de confiança" dos palestinos. Por fim, imputa 5% do êxodo palestino aos apelos árabes. Só 5%! Ou seja: bem longe da versão oficial.
Os cálculos apresentados por Morris, no entanto, só se aplicam à primeira fase da guerra de 1948, entre maio e junho daquele ano. A partir de julho, o conflito entrou em uma segunda fase, na qual de 300 mil a 400 mil árabes foram expulsos à força de suas terras.
Um exemplo de como foram tratados os árabes nessa segunda fase do conflito foi o resultado da tomada das cidades de Lydda e Ramallah em 12 de julho de 1948. Durante o enfrentamento entre árabes e israelenses, 250 palestinos morreram, dentre eles soldados desarmados. Após a vitória, os sionistas promoveram a evacuação forçada de 70 mil futuros refugiados, acompanhada de execuções sumárias e de cenas de pilhagens. Essas cenas se repetiram na Galiléia e em Neguev.
Hoje em dia, graças à revelação desses documentos, Israel se vê obrigado a rever o mito de suas origens, o que não agrada a muita gente em Tel-Aviv. Mas esses novos historiadores seguem motivados a passar a própria história a limpo, pesquisando também o Holocausto e a colonização judaica durante o mandato britânico na Palestina.
É bom lembrar, contudo, que essa louvável sede de verdade dos novos acadêmicos de Israel ainda espera por um gesto de igual importância vindo dos países vizinhos: a abertura dos arquivos árabes.

TEXTO RETIRADO

http://www.historia.templodeapolo.net/textos_ver.asp?Cod_textos=187&value=%C3%81rabes%20X%20Israelenses:%20A%20m%C3%A3e%20de%20todas%20as%20guerras&civ=Civiliza%C3%A7%C3%A3o%20%C3%81rabe#topo

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