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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O nascimento de uma nação - "Estados Unidos"




“Espere um pouco, mas qual dos dois se rende ao outro?”, ironiza uma testemunha da rendição do general Robert Lee em Appomattox Court House, no estado da Virgínia. A cena é solene. No dia 9 de abril de 1865, Lee, o comandante confederado, vestia seu melhor uniforme, com a espada cerimonial presa à cintura. Apesar do peso da derrota, sua dignidade é admirável. Sofrendo de enxaqueca, o general Ulysses S. Grant se junta a ele vestindo uma jaqueta desabotoada, botas e calças sujas de lama. Respeitoso, ele contém a emoção, enquanto seu adversário fica impassível ao assinar o ato de rendição das tropas confederadas. Seguindo as recomendações do presidente Abraham Lincoln, o vencedor mostra-se magnânimo. Lee ainda consegue que seus companheiros de armas não sejam processados por traição. A guerra havia acabado; era a hora da reconciliação.

A Guerra de Secessão foi o capítulo mais triste da história dos Estados Unidos. Quatro anos de combates deixaram o país devastado: 360 mil nortistas e 260 mil sulistas pagaram com suas vidas. Em média, um em cada cinco soldados foi morto. O número de feridos e inválidos é de aproximadamente 1 milhão. As perdas totais registradas entre 1861 e 1865 são quase tão grandes quanto às de todos os outros conflitos de que os EUA participaram desde o início de sua história. Nem os civis foram poupados. Tais perdas materiais comprovam a obstinação dos dois exércitos combatentes e a eficácia do equipamento militar.

O sul, proporcionalmente mais afetado já que era menos povoado, perdeu um quinto da população ativa. A marcha dos exércitos e a intensidade das batalhas reduziram a cinzas os estados que lutavam pela divisão dos EUA. Para os derrotados, a reconstrução foi longa e dolorosa. Seriam necessários quase 100 anos para curar as feridas de uma guerra fratricida. A violência repentina causou espanto, pois os EUA reuniam todos os elementos do sucesso. Fundado como modelo democrático, seu sistema político era de dar inveja. A Constituição de 1787 previa a separação dos poderes. Primeiro exemplo aplicado de federalismo no mundo, o país foi consagrado por instituições livres e representativas. Some-se a isso a adoção, em 1791, da Declaração dos Direitos dos Cidadãos (Bill of Rights), que garantia as liberdades individuais e públicas de todos.

No século XIX, os EUA estavam em vias de se tornar uma potência cujo território – 8 milhões de km2 – atingira uma dimensão continental. No censo de 1860, a União tinha 31 estados – repartidos de costa a costa, e do Canadá ao México – além das áreas conquistadas a oeste do Mississippi. O crescimento populacional era tão excepcional quanto a expansão territorial. Nessa época, os EUA tinham 31,5 milhões de habitantes. No espaço de 20 anos, a população dobrou graças aos importantes fluxos migratórios da Europa. Essa mão de obra era oportuna, pois o panorama econômico oferecia oportunidades de desenvolvimento. Em uma terra tão rica e fértil, o mercado dos EUA parecia inesgotável. Acima de tudo, a jovem nação caminhava para uma industrialização que já competia com as potências europeias.
Mas um sentimento separatista surgiu no coração do país. Desde o início do século XIX, sinais de desunião podiam ser detectados entre a indústria do norte, vetor do progresso, e o sul, terra de uma sociedade patriarcal e agrária, baseada na escravidão. Para proteger a indústria, os estados do norte defendiam a aplicação de uma tarifa protecionista, enquanto os do sul desejavam uma política de livre comércio, a fim de promover a exportação de algodão, principal fonte de riqueza. Os sulistas ainda exigiam o direito de quebrar o pacto federativo e deixar a União Federal se sentissem que seus direitos estavam sendo violados, o que os nortistas contestavam, seguindo uma interpretação literal da Constituição. Em 1832, o estado da Carolina do Sul já havia feito uma ameaça antes de ceder à pressão do presidente Andrew Jackson.

A questão da escravidão pôs lenha na fogueira. De debate moral, tornou-se um problema político com a expansão em direção ao oeste. Os sulistas, cuja cultura do algodão esgotava o solo, tentavam exportar seu modelo de plantação, e com ele o sistema escravista. A ameaça era grave para os agricultores do norte, que cobiçavam essas novas terras. Por meio de acordos, o equilíbrio precário foi mantido, mas o mal-estar se tornou inevitável.

Assim, em 6 de novembro de 1860, quando Abraham Lincoln foi eleito presidente, o sul se inflamou. A vitória do republicano, que representava os interesses do norte, foi percebida como uma provocação. Em 20 de dezembro, a Carolina do Sul se separou do restante do país. Em 4 de março de 1861, quando Lincoln entrou na Casa Branca, sete estados escravistas proclamaram a dissolução da União e formaram uma confederação, à qual aderiram outros quatro estados do sul. Em 12 de abril, o ataque a Fort Sumter, reduto federal na entrada da baía de Charleston, na Carolina do Sul, jogou o país em uma guerra civil.

Lincoln declarou estado de insurreição. Por falta de um exército permanente, ele convocou voluntários para abafar a rebelião. Em 19 de abril, um bloqueio foi montado para asfixiar a economia do sul. Era o plano Anaconda. Para vencer, o norte contava com a superioridade de seus recursos humanos e materiais. Com 22 milhões de habitantes, 80% das indústrias do país, uma importante rede ferroviária, uma concentração de centros comerciais e financeiros, os principais projetos de construção naval, a União podia muito bem enfrentar a Confederação, que dispunha de apenas 9 milhões de habitantes (dos quais 3 milhões eram escravos), e sofria com a falta de bens manufaturados, armas e dinheiro.

Entretanto, o norte não encontrou facilidade. Com muito sacrifício, o general Ulysses S. Grant abriu o caminho rumo ao Tennessee, ocupando em fevereiro Fort Henry e Donelson Fort. O golpe principal foi dado na foz do rio Mississippi. No final de abril, a esquadra do almirante David Farragut tomou Nova Orleans, a maior cidade da Confederação. Sua queda ameaçava o sul de dissolução e obrigou Jefferson Davis, presidente dos estados separatistas, a alistar civis para a guerra. Na Virgínia, os confederados, sob a liderança do general Robert Lee – um oficial de carreira que se manteve fiel ao sul embora considerasse a secessão inconstitucional e condenasse moralmente a escravidão –, conseguiram adiar o êxito das tropas do norte. Em junho de 1862, o general Lee forçou o general George McClellan, que chegara às portas de Richmond, quartel-general dos sulistas, a dar meia-volta. Nos dias 29 e 30 de agosto, Lee impôs uma nova derrota ao exército da União, em Bull Run. Em seguida, invadiu o estado Maryland em uma tentativa de tomar a capital federal. Mas em 17 de setembro foi derrotado nas margens do córrego Antietam, perto da cidade de Sharpsburg. Com 23 mil vítimas, esse foi o dia mais sangrento do conflito.
Em 1863 as coisas mudaram. Primeiramente, porque Lincoln assinou em 1° de janeiro o ato de libertação dos escravos, que foi, em certos casos no norte, sinônimo de abolição. Em segundo lugar, porque a guerra tomou uma grande proporção, as batalhas eram cada vez mais sangrentas. O desenvolvimento de novas armas, os 3 milhões de homens mobilizados dos 14 milhões disponíveis, a vasta faixa territorial onde se davam as batalhas, a importância dos meios de trans-porte e comunicação (ferrovias, telégrafo) e a organização de operações por terra e água refletiam a evolução dos projetos militares. Pela primeira vez um conflito mobilizava todos os recursos da sociedade civil. O esgotamento dos recursos do sul foi a chave para a vitória.

Depois de duas vitórias, em Fredericksburg (em 13 de dezembro de 1862) e Chancellorsville (em 2 de maio de 1863), Lee invadiu a Pensilvânia, mas seu progresso foi interrompido pelo general George Meade em Gettysburg, em julho de 1863. Cerca de 51 mil soldados foram postos fora de ação. Foi um momento-chave da guerra. No dia 4 de julho, data da independência americana, Grant tomou Vicksburg, no Mississippi, dividindo a Confederação em duas partes. Dominando todo o curso do rio Grande, os nortistas chegaram às portas do sul. Em 1864, Grant foi transferido para o fronte de Virgínia com a missão de derrotar Lee, que se viu obrigado a recuar. Em 14 de abril de 1865, o assassinato de Lincoln, em um teatro em Washington, deu uma dimensão ainda mais trágica àquele momento.

No sul arruinado, devastado, sujeito à dura lei dos vencedores, os anos de reconstrução foram conturbados. Muitos sulistas, desafiando a derrota, perpetuaram o mito da “causa perdida”, daí o clima de extrema violência, ilustrada pelos crimes de bandidos como Jesse James ou de sociedades secretas como a Ku Klux Klan. Ocupado militarmente até abril de 1877, o sul só sairia de seu estado de subdesenvolvimento depois da Segunda Guerra Mundial, como resultado das obras realizadas na bacia do Mississippi e da exploração de petróleo e gás no Golfo do México. Os negros, por sua vez, precisaram esperar até os anos 1960 para conquistar os direitos civis. Isso mostra como a Guerra Civil afetou a história americana. Não à toa ela é tema recorrente nas obras de escritores do sul, como William Faulkner, ou no cinema, de O nascimento de uma nação (1915) a Cold mountain (2003), passando por ...E o vento levou (1939).

O conflito perdura como uma epopeia nacional, o único que opôs americanos. Ao longo de gerações, o sonho de Lincoln se realizou. Seu triunfo tornou o pacto federativo indestrutível. Foi essa experiência terrível, e não a luta pela independência, que fez dos americanos um povo unido, consciente de seu destino único. A Guerra de Secessão foi uma espécie de segundo nascimento gravado para sempre na memória coletiva dos americanos.

TEXTO RETIRADO

http://www.historia.templodeapolo.net/textos_ver.asp?Cod_textos=270&value=O%20nascimento%20de%20uma%20na%C3%A7%C3%A3o&civ=Estados%20Unidos#topo

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