Redes Sociais

Anuncio

Celular

Operação Salva Semestre

Celular

Quanta Gente.

Pesquisar neste blog

quinta-feira, 26 de março de 2015

Bartolomé de Las Casas: uma das personagens mais mencionados na América no século XVI.



Por: ANILDO BARBOSA SARINHO

A historiografia contemporânea vem redescobrindo o valor da história latino-americana, tanto a do passado indígena quanto a da conquista e colonização: livros, teses e documentários têm dado destaque à necessidade de se entender o passado desse continente. Suas origens, arquitetura, sistemas econômicos, políticos e religiosos são temas recorrentes e comuns das pesquisas sobre os povos latinos. No entanto, nosso interesse principal nesse trabalho é investigar os aspectos que marcaram o frei Bartolomé de Las Casas (1484-5/1566) que ficou conhecido como “defensor dos índios”, no gênese da conquista espanhola na América.
Bartolomé de Las Casas, frade e bispo de Chiapas, mais conhecido como “defensor dos índios”, é uma das personagens mais citadas da História da América do século XVI, uma vez que teve uma atuação política intensa nesse período em defesa dos indígenas. Las Casas denunciou a realidade trágica dos indígenas por meio de sua obra, aliando elementos do Cristianismo com os trágicos da Conquista. Para ele, nada era mais perceptível do que a dizimação, a ameaça e a destruição feitas pelos espanhóis na colonização.
Antes de nos aprofundarmos no assunto de Las Casas, é necessário levantarmos a questão de como é fundamental utilizarmos das fontes históricas, para o desenvolvimento das pesquisas em história, sua tarefa é imprescindível no acesso a informações que constituem a relativa busca do pesquisador em compreender seu principal objetivo e encontrarmos dados que expressem informações especificas acerca do uso de documentos em pesquisas, deve ser, apreciado e valorizado. A riqueza de informações que deles podemos extrair e resgatar justifica o seu uso em várias áreas das Ciências Humanas e Sociais porque possibilita ampliar o entendimento de objetos cuja compreensão necessita de contextualização histórica e sociocultural.

[...] o documento escrito constitui uma fonte extremamente preciosa para todo pesquisador nas ciências sociais. Ele é, evidentemente, insubstituível em qualquer reconstituição referente a um passado relativamente distante, pois não é raro que ele represente quase totalidade dos vestígios da atividade humana em determinadas épocas. Além disso, muito frequentemente, ele permanece como único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente.[1]


            Para que possamos utilizar das fontes feitas pelos cronistas durante o processo da conquista em presença das ações conquistadoras. É necessário usarmos de referencia as descrições coletadas e desenvolvidas e também de outras fontes secundarias, sobretudo nas abordagens mais abrangentes acerca das obras que eram produzidas durante a América colonial hispânica. Na medida em que, este movimento espanhol de conquista procurava elaborar a importante iniciativa esclarecedora no valor dos fatos narrados e presenciados diante do contexto etnológico em relação aos procedimentos dotados como mapeamento geográfico, organização social e dos objetos catequéticos impostos aos nativos.

         Em geram, todas essas crônicas fazem alusão à importância que nessas sociedades tinham o trabalho, religião, as hierarquias sociais, e não deixam de mencionar os castigos rigorosos aplicados aos bêbados, ladrões, mentirosos e indisciplinados.
         No entanto, os mesmos cronistas descrevem o comportamento pós-conquista dos índios com todos os vícios imaginários. A ruptura entre uma situação e outra é evidente e causou surpresas em todos esses autores.[2]


            Com isso, os cronistas procuram explorar visões diferenciadas para compreender os propósitos coloniais diante do controle de informações extraídas por críticos tanto espanhóis como mestiços. Que levavam a questionamento durante o período colonial nos textos conduzidos pelos cronistas da época, conforme abordagem do universo indígena e de que maneira era explorada pluralidade étnica e cultural inseridas no espaço em discussão historiográfico, acerca desses nativos que habitavam o “Novo Mundo”.
            Com relação à Las Casas, ressaltaremos que estudar esse cronista é ter acima de tudo muito cuidado, pois podemos cair no erro de torná-lo um homem à frente de seu tempo, ou até mesmo endeusá-lo. “Um homem de mentalidade tipicamente medieval, que possuía uma grande capacidade de erudição, nunca perdendo oportunidades para vencer seus oponentes com forte argumentação de sua teologia escolástica” (FUETER 1984, pág 358).
            Com a descoberta do Império Asteca (México) em 1519 e futuramente a descoberta do Império Inca (Peru) no ano de 1531, o modelo espanhol iniciado por Colombo em 1492, chamado Ensaio Antilhano, chegou ao fim. Fim no sentido de que a descoberta desses dois impérios mudaram os rumos da conquista. Se antes era através dos mares, agora seria por terra firme. Nesta análise sobre os mecanismos da conquista espanhola nessa nova etapa da colonização, a chamada Expansão Continental, onde analisaremos os testemunhos de Las Casas e a sua visão sobre a colonização espanhola. Para chamar a atenção das autoridades, dos colonos e daqueles que pudessem ter contato com seus escritos, Las Casas usava o trágico, a denúncia era feita exaltando a violência e a crueldade dos colonizadores. É de forma apocalíptica que ele descreve o sistema colonial. (BRUIT 1995).
            Deste modo devemos tomar cuidado ao analisar os escritos de Bartolomé de Las Casas. Parece-nos que ao escrever sua obra mais contrária a esse tipo de colonização, O Paraíso Destruído Las Casas nos fala de mil, centenas e até milhões de mortes causadas por diversos motivos, entre eles, o trabalho nas minas, a espada e as doenças foram alguns dos principais. Mas mesmo sem ter essa exatidão, historiadores de hoje chegam a conclusão de que os números estimados por Las Casas refletem, de fato, um dado alarmante, o decréscimo populacional dos nativos. Números esses que se assemelham aos estudos dos dias atuais (TODOROV 2003).
            A pergunta é: quais foram os motivos dessa catástrofe? Como os espanhóis, em menor número, conseguiram subjugar os nativos e dominá-los? Vamos responder a essas perguntas, ou ao menos tentar achar respostas que contemplem a magnitude desses episódios. Uma das causas principal foi sem dúvida às doenças, como sarampo, varíola e gripe. Os europeus trouxeram para a América as doenças, infectando os índios que não possuíam nenhuma defesa contra esses vírus, até mesmo uma simples gripe era capaz de levar um nativo à morte.
            Mais do que o poder mortal que as epidemias provocavam, surge em meio a tantas mortes um sentimento de que os espanhóis foram contemplados com a graça divina, já que muitos dos seus inimigos tombavam em função do choque microbacteriano. (TODOROV 2003).

Os conquistadores consideravam as epidemias como uma de suas armas; não conhecem os segredos da guerra bacteriológica, mas, se soubessem, não deixariam de utilizar conscientemente as doenças; pode-se também imaginar que, na maior parte das vezes, eles nada fizeram para impedir a propagação das epidemias. O fato de os índios morrerem às pencas é prova de que Deus está do lado dos conquistadores. Os espanhóis talvez presumissem um pouco a boa vontade divina para com eles, mas o fato era, para eles, incontestável.[3]


            Outro fator foi à questão da religiosidade mística, pois os espanhóis chegaram em uma época, em que coincidia com uma antiga profecia indígena, na qual deuses montados em criaturas estranhas, portando armas jamais vistas pelos nativos, de pele e cabelos diferentes, chegariam, logo após a teoria do fim do mundo. Como diz em seu livro, o escritor Tzvetan Todorov (2003): “Apesar de reconhecerem o erro em acreditar que os espanhóis eram criaturas divinas, isso acontece de forma tardia, porém o suficiente para que a batalha seja perdida e a América tombada pela Europa”.
            Vale resalta mais um fator de destaque nessa conquista, pois tanto os astecas como os incas eram civilizações imperialistas, ou seja, haviam se constituído através de sucessivas conquistas; e ai está à chave dessas questões. Os povos dominados por essas civilizações enxergaram em Pizarro e Cortez, a chance de se verem livres do domínio asteca e inca, fornecendo a maioria esmagadora de homens para os exércitos espanhóis.
            Após a desestruturação de suas sociedades e as centenas e milhares de mortes causadas pelas guerras, pela fome e principalmente pelas epidemias, a sociedade indígena foi totalmente desestruturada, fazendo com que os nativos que ali habitavam fossem tratados como escravos e como verdadeiros objetos.
Um elemento importante que pode ser mencionado para compreender a barbaridade que dominava os espanhóis, ainda segundo Todorov, é o “prazer intrínseco na crueldade”, o fato de exercer poder sobre os outros, na demonstração de sua capacidade de dar a morte. Isto é, quando não há leis, regras e, enfim, uma estrutura social e moral capaz de estabelecer limites e o principal interesse é obter ouro e propagar a fé cristã justificavam toda e qualquer ação um meio para atingi-los. Além da violência física, outros mecanismos foram utilizados para subjulgar as populações indígenas. Entre estes, pode-se mencionar a aculturação pela conversão forçada à fé cristã e aos hábitos europeus:

         A conquista e seu sentido mais amplo de dominação total, de aculturação, de substituição de uma cultura por outra, de uma absorção ou, em seu defeito, de uma eliminação dos vencidos, realmente não chegou a realizar. [...] a conquista hispânica concretizou-se plenamente isto é, civilizar os índios de acordo com os padrões peninsulares; evangelizá-los a ponto de eliminar as religiões americanas transformá-los em verdadeiros vassalos do rei, e conseguir todo o metal precioso possível. Na prática, só conseguiu o ultimo, pois os outros objetivos se realizaram muito precariamente.[4]

            Como citamos, os espanhóis chegaram à América certa da superioridade de sua civilização e dos seus valores. Os outros eram bárbaros, pagãos, canibais, que não conheciam o único e verdadeiro Deus. Por realizarem cultos estranhos e muitas vezes, com sacrifícios cultuando deuses desconhecidos vistos pelos espanhóis como demônios. Torna-se uma característica, incipiente na época, mas que se intensificará com desrespeito às diferenças e à cultura dos ameríndios.

Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar crueldades estranhas; nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e parturientes e lhes abriam o ventre e as faziam em pedaços como se estivessem golpeando cordeiros fechados em seu redil. Faziam apostas sobre quem, de um só golpe de espada, fenderia e abriria um homem pela metade, ou quem, mais habilmente e mais destramente, de um só golpe lhe cortaria a cabeça, ou ainda sobre quem abriria as estranhas de um homem de um só golpe. Arrancavam os filhos dos seios das mães e lhes esfregavam a cabeça contra os rochedos [...].[5]


            Os acontecimentos descritos incomodaram profundamente Las Casas. Era difícil, ou melhor, incompreensível para ele os maus tratos que os espanhóis aplicavam aos índios. Lembremos o pesquisador Tzvetan Todorov (2003) ao analisar o episódio da conquista que nos diz que, estes mesmos índios que os consideravam deuses, seres imortais e que mal algum fizeram para receber tamanho castigo.

Havendo religiosos chegado, foram recebidos como anjos vindo do céu e o que nesse momento puderam dizer aos índios, mais por sinais de que por palavras, foi por eles ouvido com grande afeição, atenção e alegria. (...) Pois os índios desejam e gostam de levar nomes cristãos e pedem-no imediatamente (...).[6]

            Para Tzvetan Todorov (2003), o único motivo evidente dessas práticas, era o de obter o maior número de ouro dos nativos para enriquecer. E por que enriquecer? O dinheiro sempre trouxe status e poder aos homens que o obtivessem, e quanto mais se tinha mais poderoso o espanhol ficava.
             Ao longo da vida Las Casas, adotou uma postura assimilacionista, no sentido de que não se opunha à colonização, mas aos métodos violentos utilizados, ele visava tão somente à substituição da conquista violenta e da matança generalizada, por outra forma mais humana e, por conseguinte, mais eficaz na conversão dos índios à fé cristã.

         Em sua forma mais extremas, a inferioridade indígena era expressa em termos que navegam a própria humanidade dos nativos americanos. Nesse sentido, o comentário de Juan Gínes de Sepúlveda é citado com frequência por ser inequívoco a respeito. O jurista espanhol afirmou com todas as letras que os nativos “mal mereciam ser classificados como humanos”, e nem a conversão sincera e a sujeição ao império espanhol desses bárbaros verdadeiros homens civilizados.[7]


            Partindo desse pressuposto, Las Casas apontou a necessidade de reconhecer as diferenças e, aliado a isso, a dignidade dos índios. Estes não podiam ser subjulgados contra sua vontade, uma vez que não eram súditos da Igreja e, muito menos, do rei espanhol. Eram, na verdade, súditos em potencial, que poderiam um dia consentir no domínio espanhol e acatar a fé católica. Enquanto isso não ocorresse, qualquer guerra contra os ameríndios seria injusta.
            No debate com Sepúlveda, contudo, Las Casas apresenta uma tese mais radical, seguindo perspectiva desconstrutiva da argumentação de Sepúlveda de que os índios eram povos bárbaros. Para tanto, o conceito, demonstrando pelo Frade sob a ótica dos ameríndios, os espanhóis também eram bárbaros, na medida em que falavam uma língua ininteligível e por terem cometidos atrocidades e crueldades de toda espécie contra os habitantes do Novo Mundo. Que em meio a tais atrocidades, puseram a organização social dos indígenas em desordem, sendo um equívoco apontar que, desde o início, conforme sua natureza, os índios viverem nesse estado.

Deste modo, estas gentes das índias, que nós estimamos como bárbaros, consideramo-nos, também, como bárbaros, pois não nos entendem e lhes somos estranhos. [...] podemos afirmar que eles, com certa razão, por ver em nós outros costumes, estimam-nos não apenas como bárbaros da segunda espécie, que quer dizer estranhos, senão da primeira, isto é, ferocíssimos, duríssimos, aspérrimos e abomináveis.[8]

            Las Casas ao rebater o argumento de Sepúlveda, que os índios seriam bárbaros porque sacrificavam e se alimentavam de vítimas em cultos satânicos. Em primeiro lugar, reconheceu que, em si mesmo, os sacrifícios humanos são condenáveis, mas não decorre daí nenhum direito dos espanhóis que, podemos acrescentar, na Europa queimavam homens e mulheres nas fogueiras da Inquisição.
            O frade dominicano ressalta a seguinte questão, que os sacrifícios não são estranhos à tradição cristã, como demonstrada nos casos de Abraão e Isaac e, especialmente, de Jesus Cristo. Lembramos, ainda, que os próprios espanhóis, impelidos pela necessidade, tinham comido carne humana em alguns momentos. Ademais, nas guerras justas foram mortos muito mais índios pelos espanhóis do que teriam morrido nos sacrifícios aos deuses indígenas.
            Além de razões históricas, o sacrifício humano é aceitável na medida em que cada um adora Deus à sua maneira, mesmo que não seja o verdadeiro Deus. Diante da ideia que se tem sobre a veneração de dar a vida por ele simboliza algo de mais preciosa e intensa forma de devoção por isso o sacrifício teria origem na lei natural.

         O sacrifício é, nessa ótica, um assassino religioso: faz-se em nome da ideologia oficial, [...]. A identidade do sacrifício é determinada por regras estritas. [...]. Os sacrifícios provem de países limítrofes, que falam a mesma língua, mas tem um governo autônomo alem disso, [...] o sacrifício é evidência a força dos laços e seu predomínio sobre o ser individual.[9]

O caráter relativo do conceito de “bárbaro”, a impossibilidade de uma guerra justa, as limitações ao poder da Igreja e ao poder real, que somente podem se legitimar pelo consentimento dos súditos, bem como a necessidade de respeitar os costumes indígenas, mesmo que contrariassem dogmas cristãos, revelam o traço emancipatório e radical do discurso de Las Casas. O perspectivismo, por ele elaborado, aponta já em 1550, para a importância do diálogo com a diferença em buscar a compreensão do outro.
Diante de seu coerente discurso, Las Casas sugeria que o rei da Espanha renunciasse ao domínio sobre a América indígena, devolvendo aos índios a liberdade e a soberania sobre suas terras. A única guerra legítima, nesse contexto, seria da Coroa contra os próprios conquistadores espanhóis, no caso de estes não se retirarem pacificamente.
Las Casas descreveu como os espanhóis “ensinavam” aos índios os ensinamentos de Cristo. As coisas que ele presenciou, viveu e descreveu serão mais que suficientes para ele adotar uma posição contrária a essas práticas. Sua formação religiosa e devoção às causas humanas farão com que ele interpele junto às autoridades uma interferência nas Índias, devido a tudo aquilo que já vimos. Sua vida foi dedicada à tentativa de humanizar a América e comprovar que os nativos daquele continente são os verdadeiros donos de como ele mesmo chama “paraíso”. “Com o dom da vida, a liberdade é o que há de mais precioso”. (Frei Bartolomé De Las Casas).


Nestes países não há cristãos; o que existe são diabos e não servidores de Deus e do Rei; (...) Pois os atos que praticam aqui não são nem de Cristãos, nem de homens que usem a razão e sim de diabos. De modo que os índios, vendo esse comportamento geralmente tão estranho a toda humanidade e a toda misericórdia, tanto nos chefes como nos asseclas, creem que os cristãos têm essas causas por lei e que seu Deus e seu Rei são os autores desses atos. E querer trabalhar para persuadi-los do contrário, seria querer trabalhar em vão e dar-lhes ainda mais assunto para se rir e ridicularizar Jesus Cristo e sua Lei.[10]

Las Casas sempre considerou as vitórias que teve pequenas em comparação ao estrago que esse sistema colonial infligiu à América. Porém, sua iniciativa de questionar as práticas coloniais e a tentativa de humanizar o “Novo Mundo” foi de extrema importância para nós, no sentido de imaginarmos como poderia ter sido se os espanhóis aplicassem aquilo que se propuseram a fazer desde o inicio: ocupar, colonizar, doutrinar e catequizar.
A colonização imaginada por Las Casas tinha como principal objetivo misturar em todos os sentidos as duas culturas, espanhóis e índios trabalhando na mesma terra, estimulando o comercio e a troca entre eles, e, porque não, contraindo casamento.

Nos projetos de colonização pacifica que Las Casas propôs as autoridades espanholas, destacam-se duas ideias básicas que definem a sociedade por ele imaginada: Colonizar com lavradores hispânicos, casados e pobres, que tivessem terras e gado; manter os povoados indígenas totalmente livres. Essas duas comunidades deviam conviver em pé de igualdade e estabelecer livremente os contatos necessários, fossem comerciais, sociais ou outros.[11]

            Tentando chamar a atenção da coroa para um número cada vez menor da mão de obra nativa, gerando menos vassalos e menos tributos, Bartolomé de Las Casas usou estratégias políticas e econômicas para que seu projeto fosse aceito pela coroa de forma definitiva. Como já citado anteriormente, ele não era contrario a colonização, defendia sim, que os índios deveriam trabalhar, mas sem em nada lembrar o sistema das encomiendas (um sistema estabelecido pela Rainha Isabel; era confiado a um cavaleiro o direito suserano de território porque passava a ser recomendado e confiado aos colonos espanhóis para que pudessem explorar a mão obra indígena nas atividades agrícolas e extração). Las Casas buscava um equilíbrio entre os colonos e os nativos, por isso a opção de espanhóis lavradores para servirem de exemplo e estimular o trabalho nativo sem o uso da força. (BRUIT 1995).

Têm o entendimento muito nítido e vivo; São dóceis e capazes de toda boa doutrina. São muito aptos a receber a nossa Santa Fé Católica e a serem instruídos em bons e virtuosos costumes, tendo para tanto menos empecilhos que qualquer outra gente do mundo. E tanto que começaram a apreciar as cousas da Fé são inflamados e ardentes, por sabê-las entender; e são assim também no exercício do Sacramento da Igreja e no serviço divino que verdadeiramente até os religiosos necessitam de singular paciência para suportar.”[12]

            O amálgama criado na visível história da conquista fundamentada em nome de Deus e ouro, foram inimagináveis em vista do olhar gerado pelo colapso em questão da conquista e colonização. Depararmo-nos com uma situação de perda de referenciais éticas, morais ou jurídicas, em chegar a tal ponto que, o discurso imperialista espanhol sequer se preocupa em defender a veracidade das justificativas utilizadas para seus atos.


Direi mais, que desde o começo até a hora presente os espanhóis nunca tiveram o mínimo cuidado em procurar fazer com que a essas gentes fosse pregada a fé de Jesus Cristo, como se os índios fossem cães ou outros animais; e o que é pior ainda é que o proibiram expressamente aos religiosos, causando-lhes inumeráveis aflições e perseguições, a fim de que não pregassem, porque acreditavam que isso impedia de adquirir o ouro e as riquezas que a avareza lhes prometia. E hoje em dia em todas as Índias não há o menor conhecimento de Deus (isto é, nem sabem se é feito de madeira, ar ou de terra), estando na mesma ignorância em que estava há dez anos, exceto a Nova Espanha, para onde foram os religiosos, e que é um canto bem pequenino nas Índias; e também pereceram e perecem todos sem fé e sem sacramentos.[13]

As misérias de uma guerra sem sentido num tempo em que as ordens de Deus se confundem com os ditames do mercado, e no qual a resignação é colocada como única alternativa, parece importante resgatar os sentimentos de Bartolomé de Las Casas. Em sua proposta de evangelização pacificada ameríndios e por se preocupar em derrubar a ideia de inferioridade indígena através de sua visão religiosa. A coragem de quem abandonou a acomodação de uma vida com muitas posses e escravos, para se dedicar, até seus últimos dias, à concretização da utopia de uma sociedade mais justa, bem como o recurso às palavras e aos discursos críticos como principal arma, é, sem dúvida, algo que hoje nos falta.
A obra de Bartolomé de Las Casas é uma fonte constante de pesquisas e discussões na memória hispano-americana. Através da Brevíssima Relacion de la Destruición de las Índias e da Historia de las Indias consolidou-se a visão da barbárie e da dizimação indígena logo após a chegada dos espanhóis ao Novo Mundo, em 1492.[14]

Batolomé de Las Casas utilizou-se do discurso expositivo para denunciar as atrocidades geradas pelos espanhóis sob os nativos na conquista da América. No em tanto, seu intuito era forjar as opiniões das pessoas que liam sua obra e para isto, utilizou de mecanismos que, em grande parte, distorciam a realidade dos fatos. De forma que, o autor, intencionalmente, personifica os nativos como seres inofensivos, dóceis, puros e aptos à aceitação dos dogmas cristãos. Ou seja, “objetivamente, os escritos do Frei Bartolomé de Las Casas contribuíram mais do que qualquer outra historia para forjar a opinião mundial sobre a conquista espanhola. E não era outra a sua intenção.” (LAS CASAS, 2011).
Por isso, Las Casas foi estimado, um dos grandes nomes do século XVI, sendo considerado grande defensor dos índios no período colonial espanhol, ao tentar amenizar as dores dos nativos.









Referência Bibliográfica

BRUIT, Héctor Hernan. Bartolomé de Las Casas e a simulação dos Vencidos. Editora Edusp, São Paulo, 1995.

CELLARD, A. “A análise documental”. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, Vozes, 2008.

FUETER, Eduard. Storia de La Storiografia Moderna. Fondo de Cultura Econômica, México, 1984. Pg. 358.LAS CASAS, Bartolomé de. O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias. 6. Ed. Porto Alegre: L&PM, 1996, pg. 30. Sobre genocídio na América Espanhola, ver LEÓN PORTILLA, Miguel. A visão dos vencidos: a tragédia da conquista narrada pelos astecas.

LAS CASAS, Bartolomeu de. O Paraíso Destruído: A sangrenta história da conquista da América Espanhola. Porto Alegre: L&PM, 2011.

NETO, José de Freitas. Ideias/Bartolomé de Las Casas a apologética lascasiana: a construção indígena e seus espelhos. São Paulo: Unicamp, 2004.

RESTALL, Matthew. Sete mitos da Conquista Espanhola/, Matthew Restal; tradução: Cristiane de Assis Serra. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América a questão do outro. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003.






[1] CELLARD, A. “A análise documental”. A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, Vozes, 2008. P.295.
[2] BRUIT, Héctor H. “O visível e o invisível na conquista hispânica da América”. Retirado do Livro: América em Tempo de Conquista/Tradução de Ronaldo Vainfas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
[3] TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América a questão do outro. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003. Pg. 195-196.
[4] BRUIT, Héctor H. “O visível e o invisível na conquista hispânica da América”. Retirado do Livro: América em Tempo de Conquista/Tradução de Ronaldo Vainfas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
[5] LAS CASAS, Bartolomé de. O paraíso destruído: brevíssima relação da destruição das Índias. 6. Ed. Porto Alegre: L&PM, 1996, pg. 30. Sobre genocídio na América Espanhola, ver LEÓN PORTILLA, Miguel. A visão dos vencidos: a tragédia da conquista narrada pelos astecas
[6] LAS CASAS, Bartolomeu de. O Paraíso Destruído: A sangrenta história da conquista da América Espanhola. Porto Alegre: L&PM, 2011.
[7] RESTALL, Matthew. Sete mitos da Conquista Espanhola/, Matthew Restal; tradução: Cristiane de Assis Serra. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. Pg.  224-225.
[8] Bruit, Héctor Hernan. “Bartolomé de Las Casas e a simulação dos vencidos”. Campinas: Unicamp, 1995. Pg. 129.
[9] TODOROV, Tzvetan. A Conquista da América a questão do outro. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2003. Pg.
[10] LAS CASAS, Bartolomeu de. O Paraíso Destruído: A sangrenta história da conquista da América Espanhola. Porto Alegre: L&PM, 2011. Pg. 82.
[11] HERNAN, Héctor Bruit. Bartolomé de Las Casas e a simulação dos Vencidos. Editora Edusp, São Paulo, 1995. Pg. 79.
[12] LAS CASAS, Bartolomeu de. O Paraíso Destruído: A sangrenta história da conquista da América Espanhola. Porto Alegre: L&PM, 2011. Pg. 27.
[13] LAS CASAS, Bartolomeu de. O Paraíso Destruído: A sangrenta história da conquista da América Espanhola. Porto Alegre: L&PM, 2011. Pg. 122.
[14] NETO, José de Freitas. Ideias/Bartolomé de Las Casas a apologética lascasiana: a construção indígena e seus espelhos. São Paulo: Unicamp, 2004. Pg. 59.

Nenhum comentário:

Postar um comentário