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segunda-feira, 16 de março de 2015

Esperando Godot: Um Analise do Livro de Beckett


Edvaldo Batista de Sousa Filho[1]

Esperando Godot é uma peça teatral escrita no idioma francês pelo irlandês Samuel Beckett, traduzida posteriormente para o inglês por ele mesmo, com o imaginário e inspirações provenientes do período pós-guerra, onde as certezas e as crenças dos períodos anteriores haviam desaparecido por completo. O livro foi escrito em 1949, mas só foi publicado em 1952 e posteriormente foi feito um filme a partir da peça, dirigido por Michael Lindsay-Hogg que foi lançado no ano de 2001. A peça em si é composta por cinco personagens “físicos” Vladimir (Didi) e Estragon (Gogo) que são os personagens principais, Pozzo, Lucky e um garoto mensageiro, além do protagonista ausente Godot. A peça é dividida em dois atos onde Vladimir e Estragon contracenam. Durante cada um dos atos, que tem estruturas semelhantes, surgem dois novos personagens Pozzo e Lucky. Além destes, entra em cena ao final de cada ato um garoto avisando que Godot não poderá ir e que voltará sempre no dia seguinte. A peça se passa num lugar indefinido, onde os personagens esperam o tal Godot ao “pé” de uma árvore que fica numa estrada.
Para compreendermos mais a peça precisamos atentar mais para o período do pós-segunda guerra mundial, e observarmos como estava o mundo nos anos que sucederam esse acontecimento. O fim da Segunda Guerra foi o inicio de um grande prejuízo para a sociedade mundial daquela época, onde as pessoas não teriam mais a vitalidade que era basicamente normal para se viver ou construir uma vida, pois sempre haveria aquele medo de vir um combate sanguinário novamente e destruir tudo aquilo que haviam construído no decorrer dos anos, mas por outro lado a maior parte da sociedade queria se reerguer e com isso evoluir mais e mais com esses acontecimentos, surgindo assim um sentimento de esperança mesmo que fosse pequeno. O mundo estava um caos. Ao final desse grande conflito, muitas pessoas estavam sem seus lares, que foram destruídos nos combates ou até mesmo foram tomados por pessoas que buscavam abrigo. O povo judeu foi oque mais sentiu na pele as consequências da guerra, pois foram duramente perseguidos pelo exército nazista de Adolf Hitler e depois disso não tinham mais para onde ir, pois perderam absolutamente tudo que possuíam. Após isso foram deslocados para um território onde lá poderiam fixar residência, mas não contavam com os conflitos que iriam existir lá e que duram até hoje na região que abriga o Estado de Israel e a Palestina.
O continente europeu estava completamente destruído e falido. Famílias inteiras foram destruídas além de alguns países da Europa terem perdido força junto às nações mundiais, devido a grande instabilidade nas relações entre os países que havia naquele continente. Esse foi o ponto de partida para que o capital financeiro começasse a tomar lugar no mundo, pois os Estados Unidos da América, devido a esses conflitos, conseguiu fazer uma grande quantidade de empréstimos o tornando assim a maior potência mundial. Anos mais tarde essa questão iria novamente dividir o mundo com a Guerra Fria entre os EUA e a URSS, que pregavam o socialismo e a igualdade social, além de criticarem o capitalismo estadunidense. A Alemanha, mais uma vez, sofreu uma grave consequência nesse período, onde teve sua capital dividida pela metade. Apesar de não ter sido um conflito com lutas armadas, a Guerra Fria gerou grandes problemas em todo o mundo. Samuel Beckett consegue passar muito bem em sua obra esse período, devido a ele ter vivido de perto todos esses acontecimentos. Com isso ele consegue trazer e descrever, o seu sentimento e visão de mundo sobre esse período na peça Esperando Godot.
A peça remete a sociedade da época do pós-segunda guerra mundial e nela mostra os sentimentos que esse período trouxe para todos, além da violência, das ilusões pelas quais passam os personagens, pois se cria uma expectativa muito grande à espera de uma coisa que nunca chegará. No decorrer da peça, os personagens Vladimir e Estragon vão conversando exaustivamente enquanto esperam por uma pessoa que não se sabe quem é e, que nunca chega. Nesses diálogos eles falam como eram suas vidas na sociedade, mas que perderam o prestígio e se tornaram dois vagabundos. Nesses diálogos nada é esclarecido a respeitos de quem é Godot ou desejam dele e, essas conversas só vão ser interrompidas quando Pozzo e Lucky entram em cena. A única coisa que se pode saber de Godot são algumas características, como por exemplo, que ele possuí uma barba de coloração branca. Pozzo é um senhor que segura uma corda que está amarrada ao pescoço de Lucky, que é escravo dele. Lucky por sua vez é um homem que carrega o tempo todo uma maleta muito pesada e recebe ordens de Pozzo o tempo inteiro, falando até os momentos nos quais ele deve ou não pensar. Essa é uma das coisas que nos faz analisar a peça, que é o sentindo de existência do personagem Lucky, no sentido da frase “penso, logo existo[2]”, outra coisa que também remete ao sentido da existência é que todas as vezes que o personagem Vladimir pede para que o garoto avise a Godot que o viu no tal lugar marcado, o garoto apenas corre sem dar uma palavra ou algum sinal de “positivo ou negativo”, como faz das outras vezes quando os personagens realizam perguntas a ele.
O enredo da peça tem uma grande marca quando se fala dos personagens e do local onde estão. O lugar não se pode descrever devido a não existir nenhuma marca de expressão, apenas a árvore que no primeiro ato encontra-se sem nenhuma folhagem, mas já no segundo ato ela se encontra com algumas folhas. Além disso, eles não têm nenhuma noção de tempo, apenas se guiam pelo nascer e pelo pôr do sol sem saber dia ou data certa. Os personagens são meio desajustados, mas em diversas partes podemos ver que eles têm uma linha de pensamento incrivelmente sofisticada, como por exemplo, quando questionam do Pozzo tratar um humano como um animal, o fazendo viver e passar por coisas que, ao ver dos personagens, não são normais na vida de um humano. Do inicio ao fim, a peça segue o mesmo modelo e o mesmo roteiro, onde os personagens dialogam e levantam discursões acerca da vida que levam, da sua própria existência e o que eles estão fazendo ali esperando por alguém que não conhecem e nem sabem se vai chegar. Em alguns momentos Beckett mostra algumas coisas que remetem ao período da guerra, onde ele mostra a presença de conflitos, a impossibilidade de se ter esperança e a incerteza de que um dia aquilo ali irá acabar devido à metáfora que se foi criada em cima de Godot, que sempre promete que virá, mas nunca chega e não avisa quais os motivos da sua falta. Os personagens estão presos a uma impossibilidade de escolha, esses são um dos grandes impasses contemporâneos do mundo pós-guerra que Beckett trás em sua obra. Pode-se caracterizar essa peça como uma tragicomédia, onde até as situações mais extremas são “resolvidas” de forma cômica e a ação do texto é, ironicamente, o ato de esperar.
Vladimir e Estragon são dois sujeitos diferentes, onde Vladimir é um sujeito mais voltado para o abstrato que ainda busca e tem a esperança, já Estragon é um sujeito mais voltado para a realidade e com o “pé no chão” onde ele tem fome e sente suas botas apertadas. Embora diferentes os personagens se completam, onde um é a base para que o outro não se deixe levar pelos instintos e emoções nas quais estão envolvidas na peça. A obra por sua vez é uma coisa onde não acontece nada de diferente nos seus dois atos, ocorrem apenas algumas mudanças, como por exemplo, a surdez de Lucky e a cegueira de Pozzo no segundo ato. A peça não é apenas sobre a espera de Godot, mas sim remete a espera incerta que ronda todas as pessoas que constituem uma sociedade, onde elas passam por situações que nem sempre vão ter soluções, o que resta a eles é esperar sem ter a certeza de nada.
O primeiro ato da peça é a parte onde mostra a espera de ambos por Godot, onde se ajudam, se provocam, dialogam normalmente sobre coisas cotidianas da vida, e vivem uma relação de simbiose, de companheirismo e de dependência recíproca. A reciprocidade é mostrada quando Estragon pergunta a Vladimir: “e se a gente se separasse?” e Vladimir responde: “Não seria a mesma coisa!”, mostra que eles estão condenados a viverem juntos ali. Essa espera dos dois no primeiro ato só é interrompida com a chegada de mais dois personagens Pozzo (o mestre) e Lucky (escravo), que já foram descritos acima. Depois de uma série de coisas que acontecem devido à chegada desses dois personagens, chega ao fim do primeiro ato com a partida destes dois últimos e com a chegada de um garoto que avisa que Godot não virá hoje. O ato acaba com Didi e Gogo sentados e falando que acham melhor irem embora para voltar no dia seguinte e continuar a espera interminável.
O segundo ato é uma espécie de repetição do primeiro, onde o roteiro é o mesmo com diálogos de Vladimir e Estragon onde só são interrompidos novamente pela chegada de Pozzo e Lucky. O ponto chave desse ato é que Pozzo inexplicavelmente está cego e Lucky surdo. A cegueira de Pozzo o leva de um homem burguês imponente e extremamente autoritário com o seu escravo a um homem frágil que agora necessita da ajuda dos protagonistas para que pequenas e simples coisas sejam feitas para ele. A surdez de seu lacaio faz com que ele não tenha mais poder sobre ele, devido a não poder ouvir mais ordens e também pelo fato de não poder enxergar, mas ao mesmo tempo a relação entre o senhor e seu lacaio se torna de mutua dependência, onde Pozzo era a “audição” de Lucky que por sua vez era a “visão” de Pozzo. Embora o segundo ato mostre o mesmo formato de toda a peça até então, ele mostra que os personagens estão decaindo com o passar do tempo, pele, roupa, entre outras coisas.
A peça em si trás a tona uma realidade que para a época não era tão natural, que era a apresentação de personagens que estavam alheios ao período que o mundo estava vivendo, que era justamente o do pós-guerra, mas que com uma interpretação minuciosa podemos observar que os personagens estão daquele modo devido as circunstância desses acontecimentos, se indagando o tempo inteiro como será daquele momento em diante. Um grande exemplo dessa afirmação está nas falas finais da peça, onde Vladimir e Estragon ao notar que Godot não virá, mais uma vez, um chama o outro para as suas casas e que no outro dia voltem ao mesmo local para esperar o tal Godot, mas eles ficam estáticos, totalmente imóveis. Essa ação tem uma explicação, ao final da guerra eles não sabiam onde eram mais as suas casas ou se ainda possuíam residência fixa.
A obra é bem divertida e filosófica, além de muito crítica, mesmo que fosse de forma sútil. Esta é uma peça que descreve o existencialismo da época, e que ainda permeia na nossa sociedade. Tudo que direcionava a sociedade daquele período, bem como todos os paradigmas, haviam perdido a credibilidade e o homem encontrava-se perdido num mundo sem direção e repleto de questionamentos diante da vida. A soberba humanista criou o existencialismo, isso deixou os personagens sem ação diante da vida. O homem se tornou indecifrável e a fé religiosa entrou em declínio, tendo sido substituída pelas incertezas sobre um futuro promissor devido aos tantos acontecimentos dolorosos e sanguinários desse período. O mundo moderno estava em constante transformação. Assim, Godot representa a ideia simbólica de “sentido da vida” e da esperança. A obra de Samuel Beckett, Esperando Godot, é uma grande parábola da sociedade moderna que reflete fielmente o contexto histórico que era vivido pela sociedade naquele período do pós-segunda guerra mundial.


BECKETT, Samuel. Waiting for Godot (1949/1952); Tradução para o Português: Fábio de Souza Andrade: Esperando Godot, 1ª edição. São Paulo: Cosac & Naify, 2006; págs.: 244.



[1] Licenciado em História pela Universidade de Pernambuco. (2014).
[2] “Penso logo existo” René Descartes (1596-1650).

16 comentários:

  1. Texto fluente, adorável. Me encantei com tudo. Obrigada.

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  2. Uau! Excelente texto! Parabéns, simples e conciso. Obrigado.

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  3. Uau! Excelente texto! Parabéns, simples e conciso. Obrigado.

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  4. Obrigado! Bonito e informativo.

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  5. Horman Gosta da Angela

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  6. O fim da Segunda Guerra foi o inicio de um grande prejuízo para a sociedade mundial daquela época, onde as pessoas não teriam mais a vitalidade que era basicamente normal para se viver ou construir uma vida, pois sempre haveria aquele medo de vir um combate sanguinário novamente e destruir tudo aquilo que haviam construído no decorrer dos anos, mas por outro lado a maior parte da sociedade queria se reerguer e com isso evoluir mais e mais com esses acontecimentos, surgindo assim um sentimento de esperança mesmo que fosse pequeno. O mundo estava um caos.

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