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quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Imaginário Republicano



Por Taciana Barreto

O imaginário que permeia a proclamação da República brasileira detém um debate historiográfico corrente. Estudos anteriores mostraram que não houve a participação das massas na sua proclamação, ficando restrita à elite brasileira, especialmente a elite carioca.

Para iniciar essa discussão acerca da implantação da república brasileira podemos utilizar como suporte a cultura política, conceito debatido por Rodrigo Motta no livro Culturas Políticas na História. “Estudos de cultura política possuem forte convergência com as pesquisas dedicadas às diversas formas de manifestação das representações políticas (imaginário, iconografia, mitologias, etc) devido à comum motivação de compreender os impactos gerados pelos encontros de cultura e política.” ¹  A proclamação da república brasileira utilizou símbolos e alegorias com a finalidade de conseguir atingir o imaginário popular – suas vontades, aspirações – aos moldes do republicanismo. Esse imaginário se expressa por símbolos e alegorias, como já foi dito anteriormente, mas também por mitos.

O mito da origem da República e a dificuldade de se construir um herói para o novo regime são debates empreendidos pelo doutor em ciência política José Murilo de Carvalho em seu livro A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. Aqui o conceito de cultura política de Rodrigo Motta se encaixa perfeitamente no debate de José Murilo. Para o cientista político, “heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos.” ²  Como no caso brasileiro o povo não esteve envolvido na Proclamação da República, a implantação de um “herói nacional” se faz necessária, como forma de compensação.

A disputa foi grande entre as personagens do 15 de novembro para o “cargo” de herói nacional. Entre elas o Marechal Deodoro da Fonseca, Benjamin Constant, Floriano Peixoto, e Tiradentes. Este último foi aos poucos capaz de atender às exigências de herói, pois os protagonistas do 15 de novembro estavam tendo dificuldades em se promover como “heróis com a cara do Brasil”.

Apesar de Tiradentes não ter sido personagem propriamente dito da proclamação da República era o que melhor se enquadrava ao imaginário popular. A simbologia religiosa e a aproximação de Tiradentes com a figura de Cristo – traçada inicialmente pelo abolicionista e republicano Luís Gama em seu artigo “À forca o Cristo da multidão” e depois consagrada por Joaquim Norberto de Souza Silva – era um apelo à tradição cristã do povo, o que contribuiu imensamente para ser o “preferido”. Outros motivos importantes para a “vitória” de Tiradentes: o fato de ele ser o herói da região que compreende Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, centro político do país no século XIX; ter morrido como mártir religioso, esquartejado; a batalha ideológica entre D. Pedro I (Monarquia) e Tiradentes (República); Tiradentes não era só republicano, era também uma figura do povo, humilde, plebeu, ao contrário de seus rivais do 15 de novembro, que faziam parte da elite.

José Murilo de Carvalho em seu livro A Formação das Almas também faz uma abordagem acerca de dois modelos de liberdade: a dos antigos – que caracteriza as repúblicas antigas de Roma, Atenas e Esparta, baseadas na liberdade de participar coletivamente do governo, ou seja, a liberdade do “homem público” – e a dos modernos – referente aos novos tempos, esteve presente, por exemplo, na Revolução Americana de 1776, é diz respeito à liberdade do homem privado. 

Essa abordagem dos dois modelos de liberdade é importante para se entender, segundo o autor, a dificuldade encontrada pelo Brasil de se adaptar a um dos modelos, pois embora eles não levassem em conta, era de fato importante o sentimento de identidade, e no Brasil do início da República esse sentimento não existia no imaginário popular. Portanto a busca por essa identidade coletiva para o país foi observada na Primeira República (1889-1930) como uma maneira de “redefinição da República”, “pois foi geral o desencantamento com a obra de 1889” ³ 

Podemos concluir que é de fundamental importância para o entendimento do 15 de novembro o uso do conceito de cultura política e da simbologia do imaginário popular. Também se pode destacar que a falta de uma identidade republicana contribui para a criação de um herói nacional, como foi o caso de Tiradentes no Brasil. Por fim, é válido salientar que embora passados mais de 120 anos após a Proclamação da República, é grande o debate historiográfico acerca do dia 15 de novembro de 1889.


¹ MOTTA, R. P. S. Culturas Políticas na História: Novos Estudos. Belo Horizonte, 2009.
²  CARVALHO, José Murilo de. A Formação das almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo. Companhia das letras. 1990.
³ CARVALHO, José Murilo de. A Formação das almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo. Companhia das letras. 1990. 

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